Meditação de 11 de Agosto de 2017
Rev. Josemar da Silva Alves Bonho

Jesus anda sobre o mar

O Evangelho proposto para este 10º Domingo após Pentecostes é Mateus 14.22-33. Uma leitura maravilhosa dessa narrativa, tanto para crianças e adultos, encontramos em O Grande Livro das Narrações Bíblicas, Novo Testamento (pág. 96-98), de autoria de Anne de Vries, reeditado em 2016 pelo Sínodo das Igrejas Evangélicas Reformadas no Brasil.

Anne de Vries (1904 – 1964) foi um professor e autor holandês muito popular em meados dos anos 1900. Isso mesmo, Anne é um homem. Anne costumava ser um nome epiceno,usado para ambos os sexos. De Vries escreveu com muita habilidade e reverência centenas de histórias bíblicas reunidas no Grande Livro das Narrações Bíblicas, um dos seus maiores projetos. Enquanto a maioria dos autores simplifica e trivializa a história bíblica para crianças, De Vries expande a narrativa bíblica, expressando emoções implícitas na narrativa, acrescentando detalhes e diálogos. De Vries não ignorou episódios complicados e delicados, mas recontou-os de uma maneira adequada para crianças. Como um professor experiente, De Vries procurou dar explicações que qualquer criança poderia pedir.

 

JESUS ANDA SOBRE O MAR

O sol tinha se posto. A noite caíra. As trevas estendiam-se sobre a terra. Na encosta escura de uma montanha do lado oriental do mar da Galileia, estava um vulto, imóvel. Um homem solitário, entre as rochas, ajoelhado. Era Jesus. Estava orando. As estrelas brilhavam sobre Ele e se refletiam no mar escuro. As horas passavam. Ele, porém, parecia não reparar no tempo.

E, de repente, começou um vendaval sobre a terra. O vento aumentava cada vez mais, soprando das montanhas para o mar da Galileia. Empurrava as ondas, até elas ficarem como montanhas de água com cumes de espuma. Era um temporal. Mas Jesus, lá na encosta da montanha, parecia não notar. Quando ele orava, estava muito perto do Pai; então era como se Sua alma tivesse recolhido ao céu.

Mas, finalmente Ele se levantou, fortalecido e reanimado. Andava na tempestade que surgia, em densas trevas, e via tudo ao redor. Nada se escondia de Seus olhos. Via o mar e as ondas espumantes, e lá longe, sobre as águas agitadas, no meio do mar, um barquinho. Dentro do barquinho, doze homens se esforçavam a remar contra o vento, lutando para avançar. A escuridão os cobria. Quase não viam um ao outro. Mas para Jesus a noite era clara como o dia, e Ele via até o medo nos olhos deles.

Desceu da montanha pelo caminho, no escuro, e chegou até à praia. Seus olhos fitavam o barquinho e Seu coração acompanhava os discípulos. Nada O impediria de socorrê-los. Seus pés andaram da praia diretamente para as ondas que ferviam. E elas curvaram-se docilmente a Jesus e se acalmaram, levando-O sobre elas. E, andando sobre as ondas, atravessando a tempestade e a noite, ia Jesus na direção do barco.

QUANDO os discípulos, por ordem do Mestre, embarcaram na véspera, zarpando contra vontade, tinham se conservado perto da margem, navegando para lá e para cá. Mantinham os olhos fixos na praia, pensando que Jesus ainda iria se juntar a eles. Mas a escuridão tinha chegado, e Ele ainda não viera. O desânimo dos discípulos cresceu mais ainda. Estavam tão bem intencionados com o Mestre e consigo mesmos, querendo preparar um futuro maravilhoso, cheio de glória e fama... Mas Jesus não quis. Será que não tinha confiança neles? E agora, será que até tinha se esquecido deles?

Era uma noite terrível, muito escura. E, de repente, o vento se levantou, um forte vento contrário que fez as ondas quebrarem com violência contra a proa do barco. Mas eles tinham que atravessar o mar até a outra margem, pois Jesus ordenara que fizessem assim e, mesmo lutando muito contra o vento e as ondas, quase não avançavam. Depois da metade da noite, ainda remando e lutando, só tinham navegado cinco ou seis quilômetros, no meio do mar. E já era madrugada, lá pelas três horas, no início da quarta vigília. Será que nunca alcançariam o outro lado?

E eles pensaram naquela outra noite, quando também houvera um forte temporal. Então, sim, tinham se preocupado sem motivo. Porque naquela ocasião Jesus estava com eles, dormindo tranquilamente na popa e, quando foi acordado, tinha acalmado com uma única palavra a tormenta e o mar.

Mas agora Ele não estava lá. Parecia que os tinha abandonado, e eles estavam à mercê da violência da tempestade que se precipitava sobre eles. De repente, olhando para o mar, viram um vulto branco que vinha se aproximando do barco sobre as águas escuras. O que seria aquilo? Parecia o vulto de um homem que caminhava sobre as ondas.

Eles ficaram tão amedrontados que chegaram a gritar de medo. “Um fantasma! E um fantasma!”, exclamaram. Mas uma voz meiga lhes disse: “Animem-se! Sou Eu. Não tenham medo!” E então essa voz, tão boa e tão familiar, imediatamente lhes tirou os temores. “O Mestre!”, balbuciaram. “Lá vem o Mestre!” Deixaram de pensar no vento e nas ondas. Jesus estava junto deles. Ele não os esquecera e vinha em direção deles sobre as águas.

Quem, a não ser Ele, podia fazer uma coisa dessas? Simão Pedro foi o primeiro a recuperar a fala depois da grande surpresa. E uma imensa alegria, um amor ardente ao Mestre, que não os abandonara, encheu o seu coração. Queria estar mais perto dEle, estava com tantas saudades! Pedro não suportou mais a espera, tinha que ir se encontrar com o Mestre.

“Mestre!”, gritou, “se é o Senhor mesmo, mande-me ir até aí sobre as águas.” Jesus disse: “Venha!”. Só esta palavra. Mas foi o suficiente para Pedro e para a sua fé que, de repente, tornou-se grande e vigorosa. Sem medo, sem pensar muito, ele saltou do barco, os olhos fixos em Jesus. E firme, sem hesitar, pisou as águas. Elas o carregavam! Jesus era senhor das ondas, e Pedro, por sua fé, era também.


Só que, de repente, lhe ocorreu a ideia de como era estranho aquilo. Antes não importava, ele só tinha pensado em Jesus. Agora, porém, percebeu o piso escuro e flutuante que tinha debaixo dos pés. Será que iria suportá-lo? Ouvia o vento uivando! Olhava as ondas agitadas! Montanhas de ondas vinham em sua direção, fazendo-o esquecer o Mestre. Agora só via a si mesmo e a água, só via o perigo!

E então, de repente, tão depressa como há pouco sua fé crescera, nasceu nele o medo e começou a afundar. "Senhor, salve-me!", gritou Pedro, estendendo as mãos para Jesus. E sentiu a mão do Mestre, que o segurava, puxando-o para cima, e O ouviu perguntar: "Por que você duvidou, homem de fé pequena?" E de mãos dadas foram até o barco e subiram nele. E o vento se acalmou.

Os discípulos, ao verem mais este milagre, deitaram-se no chão do barco, aos pés de Jesus, e O adoraram. Então disseram: "Ele é, com certeza, o Filho de Deus!" E, enquanto os primeiros raios da madrugada iam colorindo os picos da serra, chegaram sãos e salvos à margem do mar.

Extraído de: Anne de Vries. O Grande Livro das Narrações Bíblicas, Novo Testamento. Sínodo das Igrejas Evangélicas Reformadas no Brasil. 2016. Pág. 96-98.

A ilustração é de Christina Balit (Rock, Lois. Bíblia para crianças: histórias sempre vivas. Sinodal, 2002. p. 11)